Edição nº 136 –  29/12/2008 a 04/01/2009

Mais cultura, mais livros

Em 2007, foi lançado o Programa Mais Cultura, com uma previsão de investimentos de R$ 4,7 bilhões até 2010. O orçamento do MinC para o Programa Mais Cultura em 2008 atingiu R$ 226 milhões. Dentro deste programa, foi criado o Concurso Pontos de Leitura 2008 - Edição Machado de Assis, que teve mais de 700 inscritos. Já o Projeto Leitura para Todos anunciou, em setembro, a implantação de 122 salas de leitura, sendo que cada unidade é composta por um acervo de mil livros – 500 títulos com dois exemplares cada, um para empréstimo e outro para leitura no local. Também vale lembrar do Fórum Literatura na Escola Biblioteca Escolar e Mediação da Leitura, promovido pelos ministérios da Educação e da Cultura, que aconteceu em Brasília nos dias 24 e 25 de julho, quando foi feita uma série de sugestões para o fomento à leitura e à difusão da literatura brasileira. 

Intercâmbio de experiências e idéias

Em 2008, houve a intensificação da troca de experiências nacionais e internacionais entre profissionais e demais interessados na promoção e incentivo à leitura. Este foi um dos objetivos, por exemplo, do II Fórum do Plano Nacional do Livro e Leitura (clique aqui para ler o relatório final) que, em agosto, debateu a valorização das bibliotecas e disseminação da informação. Na ocasião, foram apresentadas e discutidas as experiências de promoção e incentivo à leitura nas diversas regiões do Brasil, assim como projetos da França, Chile e Colômbia. Concomitantemente, no I Seminário Internacional de Bibliotecas Públicas e Comunitárias, foram apresentadas experiências nacionais e internacionais bem sucedidas na área de promoção, mediação e incentivo à leitura, incluindo projetos de acessibilidade para pessoas com baixa visão e cegas. E a mesma ênfase no diálogo foi vista no III Seminário dos Planos Nacionais do Livro e Leitura no Mercosul, que aconteceu em novembro, quando se discutiu políticas de desenvolvimento da prática da leitura e o processo de constituição e consolidação dos planos nacionais de livro e leitura no Mercosul e demais países da América Latina.

Instituto Nacional do Livro

A recriação do Instituto Nacional do Livro (INL) foi um dos temas mais debatidos este ano por editores, escritores e livreiros. Em agosto, durante a 20ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, o ministro da Cultura Juca Ferreira recebeu um documento pedindo a volta do INL. Em outubro, este foi um dos temas discutidos no I Seminário de Políticas de Incentivo à Leitura no Brasil. O Governo Federal negocia a criação do Instituto do Livro e Leitura no Brasil, que deverá centralizar a gestão política, hoje a cargo da Fundação Biblioteca Nacional, e administrará o orçamento do MinC para esse setor. A contribuição estimada do mercado é de R$ 60 milhões por ano e a do governo, R$ 40 milhões. Para o secretário executivo do PNLL, José Castilho Marques Neto, “com o instituto, haverá maior poder de pressão e aglutinação de verbas. É uma forma de reforçar a musculatura para as políticas do livro”.

Fundo Pró-Leitura 

O Fundo Pró-Leitura é a contrapartida do setor livreiro – com 1% de seu faturamento anual – à desoneração de PIS e Cofins sobre o livro. A previsão é que gere cerca de R$ 46 milhões por ano para ações que democratizem o acesso ao livro e transformem a qualidade da capacidade leitora no Brasil. Mas ainda há discussões sobre essa contribuição. No dia 29 de outubro, o ministro da Cultura, Juca Ferreira, afirmou que o Fundo Pró-Leitura – forma de financiamento das ações previstas no Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) – poderá ser criado por decreto presidencial. Caso a proposta de criação do fundo precise passar pelo Congresso, o ministro acredita que terá apoio de deputados e senadores para sua aprovação.

Retratos da Leitura no Brasil

Elaborada pelo Instituto Pró-Livro, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil teve seus resultados divulgados em maio. O estudo indica que o Brasil tem hoje cerca de 95 milhões de leitores – número deduzido a partir da porcentagem de pessoas que declararam ter lido pelo menos um livro nos últimos três meses. Foram entrevistadas mais de cinco mil pessoas em 311 municípios brasileiros. Entre outros dados, a pesquisa mostra que os brasileiros estão lendo mais, que há mais mulheres leitoras do que homens e que apenas um décimo da população tem o hábito de freqüentar bibliotecas. A Bíblia é o livro mais conhecido pelos brasileiros – 43 milhões de pessoas afirmam já a terem lido. Na lista dos autores mais populares no país, Monteiro Lobato, Paulo Coelho, Jorge Amado e Machado de Assis. Em média, o brasileiro lê 4,7 livros a cada ano.

Seminário de Políticas de Incentivo à Leitura no Brasil

Em outubro, autoridades e especialistas se reuniram em Brasília para debater políticas públicas na área do livro e da leitura. O ministro da Cultura, Juca Ferreira, considerou o Instituto Nacional do Livro (INL) essencial para que haja “uma estrutura mínima que dê capacidade à articulação do conhecimento, das técnicas necessárias ao seu desenvolvimento”. O Seminário também tratou de outros assuntos fundamentais para o desenvolvimento do Brasil como sociedade leitora. Dentre esses temas, segundo Jéferson Assumção, então coordenador geral do livro e leitura do MinC, estão “o financiamento, através da criação do Fundo Pró-Leitura e a recuperação da institucionalidade do livro, com o Instituto Nacional do Livro e Leitura”. Já os avanços e obstáculos do PNLL foram discutidos por José Castilho Marques Neto, secretário executivo do Plano Nacional do Livro e Leitura, na primeira mesa de debates. Também estiveram presentes no evento o senador Cristovão Buarque, que defendeu o projeto da criação do Dia da Leitura no dia das crianças (12 de outubro) e o deputado Geraldo Magela (PT-DF), que debateu na Mesa II a criação de uma entidade autônoma para o livro.

Acordo ortográfico

O Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa propõe uma ortografia única a ser usada por todos os países de língua portuguesa. Foi assinado em 1991, mas apenas este ano foi ratificado por todos os governos. O Acordo possibilita a criação de normas ortográficas comuns para as variantes da língua portuguesa, facilita a difusão bibliográfica e de novas tecnologias, reduz o custo econômico e financeiro da produção de livros e documentos. Em outubro, o Ministério da Educação anunciou que irá comprar e distribuir, em 2009,  dicionários já atualizados com as novas regras.

Ano Nacional Machado de Assis 

Para marcar o centenário da morte daquele que talvez seja o maior expoente das letras brasileiras, 2008 foi declarado  o Ano Nacional Machado de Assis. Seminários, conferências, exposições e lançamentos foram dedicados ao autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro, Memorial de Aires e outros romances, além de contos, poesias, artigos, crônicas e peças de teatro. Um ano também em que se celebrou o nascimento de dois outros gigantes da literatura: o Padre Vieira, 400 anos, e Guimarães Rosa, 100 anos.

O futuro do livro e da leitura

Desde que começou a rápida difusão das mídias digitais em meados dos anos 90, freqüentemente se coloca a questão da sobrevivência do livro impresso – e também das editoras. A edição 02 do Libro al Dia, publicado em abril pelo Cerlalc (Centro Regional para o Fomento ao Livro na América Latina e Caribe), é dedicada a pensar as oportunidades abertas com o mundo digital, questionando sobre como essas tecnologias afetam o sistema de produção e o acesso ao livro e quais são os benefícios da Internet. Em maio, Robert McCrum, editor de livros do The Observer, escreveu seu último texto para o jornal britânico. Tratava-se justamente de uma reflexão sobre as transformações presenciadas por ele nos últimos 10 anos, quando um mundo de “papel, tinta, café e cigarros” foi revolucionado por novos escritores, muito dinheiro, a internet, prêmios lucrativos e festivais literários. E as inovações não param, como mostra o sucesso em 2008 dos “telefones inteligentes”. Já há serviços de compra e leitura de livros por esta nova mídia, que trazem algumas adaptações, como “lembretes automáticos dos livros que pararam de ler, particularmente quando mudarem de músicas ou estiverem atendendo o celular”. Paralelamente, em 2008 também se debateu o fortalecimento das habilidades empresariais dos livreiros latino-americanos, como aconteceu no Seminário Internacional para Editores e Livreiros “A livraria e seus clientes”, promovido pelo Cerlalc em outubro, no México. Outro seminário da mesma instituição discutiu, em setembro, indicadores culturais latino-americanos.

Alguns eventos de 2008

III Seminário dos Planos Nacionais do Livro e Leitura no Mercosul
Durante os dias 26 e 27 de novembro, foi realizado em São Paulo, no Museu da Língua Portuguesa, ocasião em que foram apresentados o estágio de desenvolvimento do plano do livro e leitura em cada país do Mercosul e discutidas várias medidas e propostas de ações em comum.

II Fórum do Plano Nacional do Livro e Leitura
Em agosto, reuniu em São Paulo cerca de 500 profissionais e interessados na promoção e incentivo à leitura, na valorização das bibliotecas e na disseminação da informação. Além de uma retrospectiva de dois anos do PNLL, analisando avanços e dificuldades encontradas, foram apresentadas e discutidas as experiências de promoção e incentivo à leitura nas diversas regiões do Brasil, assim como projetos da França, Chile e Colômbia. Saiba mais.

PNLL: Bibliotecas e Mediadores pela Leitura no Brasil
Durante a Bienal do Livro de Minas Gerais, em maio, diversas mesas-redondas discutiram o PNLL, o Prêmio VivaLeitura e o Proler.

Congresso Moçambique-Brasil
O tema Digitalização, democracia e diversidade foi o objeto principal de discussão na primeira edição deste evento na cidade de Maputo, em Moçambique, entre os dias 9 e 12 de junho, que contou com a participação de professores brasileiros e moçambicanos, além de exposições e debates. Saiba mais.

20ª Bienal do Livro de São Paulo
Em agosto, o PNLL fez sua estréia na Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Em um espaço de 150 metros quadrados, divulgou os projetos cadastrados em seu Mapa de Ações e as iniciativas dos Ministérios da Cultura e da Educação relacionadas ao livro e à leitura.

Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro
O projeto tem como objetivo levar para a sala de aula novas metodologias de ensino que estimulem a leitura e a escrita nas escolas públicas. Os vencedores foram anunciados em dezembro. Saiba mais.

Fórum Literatura na Escola
Promovido pelo MEC e MinC em julho, apresentou uma série de sugestões para o fomento à leitura e à difusão da literatura brasileira. Entre elas, a reintrodução do estudo da literatura nas diretrizes das escolas de educação básica, a manutenção de acervos bibliográficos, a transformação da biblioteca em um espaço que seja o ‘cérebro da escola’, a mudança no currículo de formação do bibliotecário e a formação inicial e continuada do professor. Saiba mais.

Dicas de leitura

Singularidades de uma Rapariga Loura, de  José Maria Eça de Queirós
"Começou por me dizer que o seu caso era simples — e que se chamava Macário...
Devo contar que conheci este homem numa estalagem do Minho. Era alto e grosso: tinha uma calva larga, luzidia e lisa, com repas brancas que se lhe eriçavam em redor: e os seus olhos pretos, com a pele em roda engelhada e amarelada, e olheiras papudas, tinham uma singular clareza e rectidão — por trás dos seus óculos redondos com aros de tartaruga. Tinha a barba rapada, o queixo saliente e resoluto. Trazia uma gravata de cetim negro apertada por trás com uma fivela; um casaco comprido cor de pinhão, com as mangas estreitas e justas e canhões de veludilho. E pela longa abertura do seu colete de seda, onde reluzia um grilhão antigo — saíam as pregas moles de uma camisa bordada.
Era isto em Setembro; já as noites vinham mais cedo com uma friagem fina e seca e uma escuridão aparatosa. Eu tinha descido da diligência, fatigado, esfomeado, tiritando num cobrejão de listras escarlates."
Leia este e outros contos de Eça de Queirós

Canções e Elegias, de Luís Vaz de Camões
“A instabilidade da Fortuna,
os enganos suaves de Amor cego,
(suaves, se duraram longamente),
direi, por dar à vida algum sossego;
que, pois a grave pena me importuna,
importune meu canto a toda a gente.
E se o passado bem co mal presente
me endurece a voz no peito frio,
o grande desvario
dará de minha pena sinal certo,
que um erro em tantos erros é concerto.
E, pois nesta verdade me confio
(se verdade se achar no mal que digo),
caiba o mundo de Amor o desconcerto,
que já co a Razão se fez amigo,
só por não deixar culpa sem castigo.

Já Amor fez leis, sem ter comigo alguma;
já se tornou, de cego, arrazoado,
só por usar comigo sem-razões.
E, se em alguma cousa o tenho errado,
com siso, grande dor não vi nenhuma,
nem ele deu sem erros afeições.
Mas, por usar de suas isenções,
buscou fingidas causas por matar-me;
que, para derrubar-me
no abismo infernal de meu tormento,
não foi soberbo nunca o pensamento,
nem pretende mais alto levantar-me
daquilo que ele quis; e se ele ordena
que eu pague seu ousado atrevimento,
saiba que o mesmo Amor que me condena
me fez cair na culpa e mais na pena.”
Leia este poema e outros de Camões na íntegra

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