O papel da escola como uma das instituições responsáveis pela movimentação do setor editorial brasileiro vai muito além da missão de formar e estimular leitores. Sua contribuição e influência vêm transcendendo a área pedagógica a ponto de cada vez mais as editoras enxergarem os estabelecimentos de ensino como um nicho vital de mercado. Mais de 60% de toda a produção editorial brasileira é adquirida em função do ensino e da aprendizagem, ou seja, pela escola e seu entorno.
Graças à difusão dos programas públicos de alfabetização e educação desenvolvidos nos últimos governos, aos programas de compras de livros e ao crescimento dos sistemas de ensino particulares, nunca, na história do País, tantas pessoas freqüentaram as salas de aula. Nos últimos 10 anos, o número de matrículas no ensino médio mais do que dobrou.
São 57 milhões de brasileiros, ou um terço da população, matriculados na escola básica, acrescidos de dois milhões de professores nesse grau de ensino e mais cerca de 4,2 milhões de alunos e professores do ensino superior. Colocando na ponta do lápis são 63,2 milhões de pessoas potenciais consumidores de livros, representando um contingente igual ou maior que a população de muitos países, como a França, por exemplo. É quase quatro vezes mais do que o atual mercado comprador de livros do pais (17,5 milhões de pessoas ou 20% da população brasileira alfabetizada acima de 14 anos).
Hoje, o mercado editorial brasileiro é um setor da economia que movimenta R$ 2,4 bilhões ao ano e produz 300 milhões de exemplares e 35 mil títulos lançados o que, em números absolutos, o credencia a um dos maiores do mundo. Porém quando inclui?se na equação o número de habitantes, essa impressão cai por terra. O índice de leitura per capita/ano não chega a dois livros. Pior: 61% dos brasileiros adultos alfabetizados tem muito pouco ou nenhum contato com livros e entre as 17 milhões de pessoas que não gostam de ler livros, 11,5 milhões possuem até 8 anos de instrução.
A escolaridade média dos brasileiros não chega a seis anos, o que é menos da metade dos anos que um coreano passa na escola. Argentinos e chilenos têm mais de 50% do tempo médio de escolaridade dos brasileiros.
Tudo isso, que à primeira vista é uma desvantagem para o mercado editorial, pode ser uma oportunidade, fato percebido por muitos. A educação já movimenta R$ 90 bilhões por ano no Brasil e deve ser o setor que mais crescerá no mundo nas próximas duas décadas. Bastaria que os 63,2 milhões de brasileiros que estão vinculados à escola, quer como estudantes, quer como professores, tivessem um padrão mínimo de uso e consumo de livros compativel com uma economia emergente como a nossa, para que os números da nossa indústria editorial tivessem um incremento de mais de 50%.
O governo é o maior comprador individual de livros escolares do mundo, embora se considerarmos o número de matriculados no ensino fundamental, os programas sociais de compra de livros distribuem 3,3 livros por aluno por ano em média, o que é pouco. Adquiriu 109 milhões de livros didáticos e 64 milhões de livros de literatura para uso nas escolas no período de 12 meses entre julho de 2001 e junho de 2002. Em 2003, 120 milhões de livros didáticos no PNLD mais 40 milhões de exemplares para o "Literatura em minha casa" e o "Palavra da gente".
Ao ser alfabetizada, ao aprender a domar as palavras, ao iniciar um relacionamento com os livros, a criança pode começar a ser gradualmente fidelizada como consumidora. Sabemos da forte influência dos professores na formação de seus alunos e, esta influência, no que diz respeito ao gosto pela leitura, vai depender do grau de afetividade do professor com o hábito de ler.
Ler por obrigação, sem curtir o texto, só para cumprir um dever escolar, longe de criar leitores, pode até "vacinar as crianças contra o hábito de ler". Com os professores ao pesquisar as ferramentas certas para sua docência e com os adultos que buscam uma qualificação superior, acontece um fenômeno que depende do grau de intimidade que cada um tem com o livro e a leitura.
Se já forem leitores com hábito e gosto adquiridos ainda na educação fundamental, terão muito menos dificuldades em selecionar e se aproveitar do saber que está nos livros; caso contrário, será para eles um grande sacrifício compulsar a bibliografia e, em muitos casos procurarão escapar através da informação oral, da internet ou das famigeradas cópias xerográficas, sem conseguir chegar ao âmago formador que só o livro tem.
A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil confirma que quanto maior o grau de escolaridade, maior é a penetração de compradores de livros. Do quadro total de consumidores, 55% têm ensino superior, 26% o ensino médio e 25% o ensino fundamental. Em números absolutos, o comprador modal possui ou cursa o ensino médio, representando 6,5 milhões de compradores.
A escola, efetivamente, é uma fábrica de leituras e de leitores que pode, se convenientemente trabalhada, ser transformada em uma grande geradora de consumidores de livros.
Diante dos dados relativos ao pais e à nossa educação e escolaridade, combinados com os que se referem ao livro e à leitura, o que ressalta é o enorme potencial para o crescimento da indústria editorial de livros no Brasil.
A visão desta oportunidade vem se confirmando a cada dia com a chegada de em presas internacionais da área. Os setores de livros educativos e de livros técnico?universitários são os mais visados. Os livros didáticos para o ensino fundamental, além do mercado cativo de cerca de 35 milhões de alunos, têm nos programas governamentais um enorme atrativo.
Os editores, livreiros, autores e educadores apóiam entusiasticamente as iniciativas no campo do livro e da leitura que envolvem setores governamentais e representantes de organizações não?governamentais e empresariais. A Politica Nacional do Livro, da Leitura e das Bibliotecas, o Plano Nacional que operacionalizará estas politicas de governo e a criação do Instituto Nacional do Livro e da Leitura no MinC são iniciativas que merecem nosso integral apoio.
A conquista e preservação de um mercado mais amplo para o livro não é tarefa apenas para editores e livreiros, passa sem dúvida pela melhoria das condições de renda da população, maior inclusão social e maior adesão à educação. |